A Música & Mercado preparou uma série de matérias especiais que ensinam você a reconhecer as características que diferenciam um instrumento original de um falso.
É crescente e alarmante o número de produtos falsificados vindos da Ásia. No Brasil, alguns já começam a se difundir e causar sérios prejuízos para o mercado. Além de perdas óbvias para as lojas que comercializam produtos usados, principais vítimas do golpe, a perda de credibilidade das marcas é inevitável. É impressionante a proliferação crescente de guitarras falsificadas oriundas da China. Ícones de consumo como Gibson, Fender, PRS, Ibanez, Gretsch, Taylor e Epiphone sofrem com vigor dessa indústria paralela. As falsificações infringem o direito de propriedade e alimentam o comercio ilícito.
É importante distinguir réplica, cópia e falsificação. A réplica é uma reprodução perfeita. Concebida com a intenção de recriar com exatidão uma peça original que agrega conceitos e fatores históricos. Ou seja, é a arte de reeditar um design ou um referencial com absoluta minúcia. Esse tipo de clonagem não visa dividendos comerciais, apenas recria a peça baseada num conceito.Já a cópia é produzida em larga escala e sem autorização do fabricante original. É o típico exemplo de apropriação do patrimônio intelectual sem a intenção de se “passar” pelo original, é caso de empresas tradicionais no mercado que produziram exemplares similares ou inspirados no original, contudo utilizam logomarca própria.
Agora a falsificação é uma reprodução de baixo custo que exala a contundente intenção de ludibriar o consumidor. Utiliza a logomarca original de maneira indevida e sugere, de forma técnica e visual, que a peça é genuína. As falsificações fogem de padrões definidos por leis de copyright, regras de patente e domínio de marca registrada. Não recolhem royalties e são produzidas sem autorização dos fabricantes originais. É o caso das guitarras falsas com a logomarca Gibson – exemplares feitos na China que são vendidos no comércio eletrônico por custos econômicos.
A falsificação rompe com a ética e estética, apresenta um plano perspicaz que incita o desejo e consumo. Mas é a escolha dos desavisados.
Veja as diferenças das especificações técnicas de uma Gibson Les Paul autêntica e uma falsificação produzida na Ásia.
DETALHES DO HEADSTOCK
Original -Logotipo centralizado e levemente inclinado. A madrepérola utilizada na incrustração do logo tem coloração amarelada. Capa protetora do tensor possui 2 mm de espessura fixada com dois parafusos e formato de “sino”. A angulação do headstock é acentuada, de 14 a 17 graus
Falsa - Logotipo “fora de centro” com deslocamento acentuado. O material utilizado no inlay do logotipo é de madrepérola artificial, com coloração clara e opaca. Capa protetora do tensor possui 0.7 mm de espessura fixada com três parafusos e o formato é diferente do original da Gibson. A angulação do headstock é sutil, abaixo dos 7 graus.
DETALHES DO BRAÇO
Original - Contornos traseiros sem muita definição de formato. Voluta sem relevo. Nut ou capotraste confeccionado de Corian, material sintético que combinam minerais naturais e polímero acrílico puro. O acabamento lateral dos trastes e frisos é pouco arredondado.
Falsa - Contornos traseiros com definição de formato. Voluta com relevo. Nut ou capotraste de plástico com acabamento grosseiro. O acabamento lateral dos trastes e frisos é arredondado em demasia.
DETALHES DO CORPO
Original - Cavidades dos captadores são limpas e permitem a visualização do tampo frontal de maple. Cavidade de parte elétrica escavada com simetria e interior limpo. Os componentes elétricos montados sob uma capa metálica.
Falsa - Cavidades de captadores são sujas e cobertas com tinta preta. Na maioria das vezes, não é possível visualizar a espessura do tampo frontal. As cópias mais grotescas utilizam películas plásticas que imitam os veios da madeira do tampo superior. Cavidade da parte elétrica apresenta formato diferente da original e os componentes elétricos estão fixados diretamente na madeira.
HARDWARE
Original - Captadores originais da Gibson. Basta verificar a base inferior do pickup, que contém o logotipo Gibson.Pontes, tarraxas e ferragens de procedência identificável. Componentes elétricos de qualidade fornecidos por empresas conceituadas. Os condutores externos dos captadores são de malha trançada ou são cobertas por capa de plástico de material térmico e durável.
Falsa - Captadores de visual similar aos originais da Gibson. Mas a semelhança é apenas visual. A base inferior do pickup é rústica e não contém o logotipo Gibson. Ponte, tarraxas e ferragens de procedência desconhecida. Os condutores externos são cobertos por capa de plástico maleável.
ACABAMENTO
Original - Verniz nitrocelulose com camadas finas sobrepostas e brilho moderado.
Falsa - Verniz bi componente denso extremamente brilhante.
MATERIAIS
Original - Tipos e madeiras mais usuais: Mahogany, Maple, Indian Rosewood, Brasilian Rosewood e Ebony.
Falsa - Utilizam as seguintes madeiras: Nato, Asian Maple, Sen, Basswood, Grenadilha e Kiri.
NÚMERO DE SÉRIE
As reproduções falsas possuem números de séries inseridas com silkscreen. As originais apresentam as numerações gravadas na madeira em relevo. Mas, atenção, alguns modelos originais utilizam o processo de silkscreen (a custom shop e a Les Paul Classic). A numeração das guitarras falsas não fornece o ano, nem o lote de fabricação.
Os falsificadores chineses sofreram um duro golpe em recente investida das autoridades legais da China. O chinês Yu Hui, a “pseudo” empresária Li Dan e alguns de seus familiares foram condenados a três anos de reclusão pelos crimes que envolvem a comercialização direta e indevida de instrumentos musicais falsificados. A própria China iniciou uma campanha de repressão ao varejo ilegal, investindo na construção de uma imagem mais positiva em relação ao mundo. O momento é oportuno para um enorme “recall”, para que possamos questionar o gatilho propulsor do consumo dentro de um contexto sócio, econômico e cultural.

A "pseudo empresária" Li Dan, que vai ver o sol nascer quadrado por um tempo...
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